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1 de maio de 2004

Sobrevivendo à realidade

Ele sabia o que estava por vir, mas fingiu ignorar. Como é possível saber que alguma coisa venha a acontecer se não há evidências claras disso. Mas ele sabia e sentia no ar que algo estava para mudar. As últimas semanas seguiam a mesma rotina. A diferença estava nos detalhes. O tempo parecia passar mais rápido. O sorriso não vinha com tanta facilidade. Era noite e o dia havia sido cansativo. Abriu uma cerveja e sentou na frente da TV ligada.

- Será que foi o tempo?

Ela andava distraída pela rua. Sentiu uma vontade de fugir do escritório, respirar um ar novo. Alguma coisa a sua volta a estava sufocando. Andou sem direção definida e enquanto caminhava observava as vitrines das lojas, o movimento das pessoas. Observava mas não prestava atenção pois sua mente estava distante.

Quando criança sonhava em casar em uma igreja, linda, toda de branco. Os sinos anunciaram que a cerimônia começara. O príncipe encantado a aguardava no altar. A festa foi maravilhosa e a cerimônia foi um sonho se tornando realidade. Talvez até melhor que o sonho pois era real. Na época ela estava tão encantada que nem os detalhes a incomodaram. Cumprimentou todas as pessoas com a maior alegria. Alegria essa que transbordava por seus grandes olhos castanhos em forma de lágrimas. Ela nunca imaginara que esse momento um dia ia chegar.

Desde então sua vida mudou completamente. Seu príncipe encantado passou a ser também seu companheiro. Mudaram-se para a nova casa. Compraram os mais belos móveis. Enchiam a casa de amigos todos os finais de semana. Viviam a rotina da melhor forma possível. Ela preparava o café da manhã para ele com o maior carinho. Ele estava sempre disposto a surpreendê-la. Ora com um belo buquê de flores, ora com os mais variados presentes. Era tudo perfeito.

Ao final do expediente ela rumou pra casa. Ao abrir a porta ele a recebeu educadamente com um beijo carinhoso. Mas o encanto havia se perdido. Os dois sentiram isso. E não era de hoje. Talvez nunca tenha sido. Porém eles continuaram como se a ficha ainda não tivesse caído. Conversaram sobre o dia. Ele contou sobre o estresse no trabalho, ela também. Mas também comentou da escapada que dera para caminhar na hora do almoço.

- Sobre o que você refletiu?
- Sobre nós... na verdade sobre mim.

Ela não sabia aonde seus sonhos a tinha levado. Agora a realidade parecia maior que tudo e ela não suportava o peso. Ao ouvir suas palavras ele entendeu o que ela sentia pois aquilo também o afligia.

- O que faremos?
- Não sei - disse ele pensativo.

Eles sempre foram muito parecidos, porém não se completavam, apenas compartilhavam uma grande paixão que agora os abandonara. E nenhum dos dois sabia o que fazer quando a paixão deixa de existir. Quando ela vai embora e deixa apenas um sentimento de carinho, mas que não é o amor propriamente dito. Não existe uma real necessidade pelo outro, apenas uma conveniência. No resto sobrou um vazio.

Como seguir em frente? Como seremos apenas amigos? Como concertar isso tudo que está tão errado?

- Acho que devemos seguir nossos caminhos separados.
- Talvez seja a melhor opção.

- Quando a chama da paixão começou a apagar?
- Não sei, mas agora é tarde demais para tentarmos entender o porquê.

Depois daquele dia, cada um seguiu o seu rumo. Sem olhar para trás. Algumas lágrimas escorreram do rosto dela. A realidade sem o sonho não se sustentou.

Um comentário:

nilza disse...

Muito bom o texto,na verdade a vida é assim, muitas vezes acreditamos em romances de novelas,deixamos de viver o real, no dia a dia somos fracos. DESCULPA MEU COMPUTADOR ESTA COM PROBLEMAS.